Os evangelhos podem ser lidos de duas maneiras

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Os evangelhos também podem ser lidos de duas maneiras. Pelo fiel, são lidos como a estranha história de um homem, de um deus, que expia os pecados da humanidade. Um deus que se digna ao sofrimento – à morte na “amarga cruz”, como diz Shakespeare. Há ainda uma terceira interpretação, que encontrei em Langland: a ideia de que Deus queria saber tudo sobre o sofrimento humano e que não Lhe bastava sabê-lo intelectualmente, como é facultado a um deus; queria sofrer como um homem, e com as limitações de um homem. Contudo, se você for um incrédulo (muitos de nós somos), então poderá ler a história de modo diverso. Pode pensar num homem de gênio, num homem que pensava ser deus e que no final descobriu ser somente um homem, e que deus – o seu deus – o abandonara.

(BORGES, Jorge Luis. “O narrar uma história”. In: Este ofício do verso.)

A marca de Satã segundo Clarice Lispector

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A mão verde e os seios de ouro – é assim que pinto a marca de Satã. Aqueles que nos temem e à nossa alquimia desnudavam feiticeiras e magos em busca da marca recôndita que era quase sempre encontrada embora só se soubesse dela pelo olhar pois esta marca era indescritível e impronunciável mesmo no negrume de uma Idade Média – Idade Média, és a minha escura subjacência e ao clarão das fogueiras os marcados dançam em círculos cavalgando galhos e folhagens que são o símbolo fálico da fertilidade: mesmo nas missas brancas usa-se o sangue e este é bebido.

(LISPECTOR, Clarice. Água Viva.)

A identidade de gênero é uma imitação sem modelo originário

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Para [Judith] Butler, “imitando o gênero, o drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero, como também sua contingência. Ele “revela que a identidade originária a partir da qual o gênero molda a si mesmo é uma imitação sem origem”. A performance parodística do drag demonstra que o próprio gênero é uma performance cujo caráter não é cômico nem trágico, mas dramático: na modernidade, o gênero é uma representação considerada real, em que os atores colocam em questão a própria sobrevivência cultural. Os protagonistas das “narrativas naturalizantes da heterossexualidade obrigatória”, isto é, o homem e a mulher, são apenas uma repetição estilizada de comportamentos, moldada em um ideal que nenhum ser humano real poderá encarnar plenamente. Apesar disso, quem não representa bem seu papel se vê espoliado de sua dignidade, exposto à ironia e à violência dos outros, expelido como um dejeto.

(BERNINI, Lorenzo. “Macho e fêmea Deus os criou!? A sabotagem transmodernista do sistema binário sexual”. In: Revista Bagoas: estudos gays, gênero e sexualidade. V. 5, N. 6, jan./jun./2011. p. 15-47.)

Texto integral: http://www.cchla.ufrn.br/bagoas/v05n06art01_bernini.pdf

Fonte da imagem destacada: http://petapixel.com/2013/10/12/half-drag-photos-show-transformations-nyc-drag-queens/

Caça-fantasmas 3 e a imaginação nerd

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Eu pessoalmente me empolguei com a ideia de escalar mulheres para os papéis principais de Caça-fantasmas 3, não só por ser um gesto de significativa representatividade feminina (principalmente por isto), mas também porque gosto de ver releituras que subvertam as expectativas, de ver as coisas sendo feitas de forma diferente, variações que podem trazer novos meios de encarar a realidade.

Fiquei transtornado, embora não surpreso, com a reação misógina e gordofóbica à escolha do elenco, por parte de um certo público nerd.

Além da necessidade de mais representatividade e menos hegemonia de grupos sociais privilegiados, para mim, aquilo que penso ser uma postura “nerd” diante da construção das mídias de ficção científica, fantasia e tudo mais envolve, no mínimo, um razoável grau de neofilia, de gosto por renovação. Infelizmente, aos tais nerds e geeks, muitas vezes tidos como pessoas inteligentes, falta um tanto de imaginação.

O macaco

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Meio-dia, à sombra de um pé-de-planta…
Que Diabo! E este macaco! E, agora, veja:
Na astuta urgência símia da peleja,
Desce o caule e me belisca a garganta.

“Eu vou capturá-lo onde quer que esteja!”
– Falo. Ele sobe e para. Guincha e canta.
Eu miro a copa. E avisto o sacripanta,
Que macaqueia, escarnece e moteja.

Tento apanhá-lo e então pô-lo num saco,
Mas ele foge. A Razão se organiza:
Como domar esse animal imundo?!

A Insanidade Humana é este macaco,
A gente o domestica, e ele anarquiza
Inusitadamente o nosso mundo. Continue lendo

Mulheres autoras

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O Geledés postou uma lista de 22 livros escritos por mulheres que todo homem deveria ler.

Das obras relacionadas, já li A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, e Um é o Outro, de Elisabeth Badinter. Não li Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, mas li dela Orgulho e Preconceito.

Alguns dos livros mencionados estão na minha lista de leitura há algum tempo: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir (se eu conseguir encontrar um exemplar!), e Sejamos Todos Feministas, de Chiamamanda Ngozi Adichie.

Para mim é importante ler livros escritos por mulheres, pois representa uma quebra no paradigma literário ocidental. Posso me gabar de ter muitos livros de autoria feminina em minha biblioteca pessoal (física e digital), e sempre procuro alternar as leituras entre escritoras mulheres e homens.

Link: http://www.geledes.org.br/22-livros-escritos-por-mulheres-que-todo-homem-deveria-ler/#axzz3LdQ2D5Ai

Bolsonaro & Hobbes

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Vi gente defendendo a reação de Jair Bolsonaro ao “jocosamente” afirmar que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada por ele, chamá-la de “vagabunda”, empurrá-la, apontar-lhe o dedo em riste e mandá-la chorar.

Para a pessoa que defendeu Bolsonaro, é perfeitamente compreensível alguém reagir com violência a qualquer ofensa recebida, como se fosse “natural” a qualquer indivíduo sempre agir como um animal raivoso diante de qualquer contrariedade.

Essa é a ideia por trás do adágio defendido pelo filósofo inglês Thomas Hobbes: “homo homini lupus”, ou seja, “o homem é o lobo do homem”. Para Hobbes, só um governo autoritário poderia reprimir e refrear os impulsos espontâneos que cada ser humano tem de matar seus semelhantes.

Ou seja, inadvertidamente ou não, quem defende a reação reacionária de Bolsonaro está defendendo a necessidade de uma ditadura, e esta é, para o infame deputado,  justamente a própria Utopia.